domingo, 28 de maio de 2017

AS NOITES LOUCAS DO DR. JERRYLL


AS NOITES LOUCAS DO DR. JERRYLL (1963)

Há muitos estudiosos da obra de Jerry Lewis que afirmam que “The Nutty Professor” é o filme mais completo e perfeito deste cineasta. Por mim, “The Patsy” ocupa essa preferência, não andando muito longe, porém, desta genial adaptação da obra de Robert Louis Stevenson, no original intitulada “The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde” (na sua tradução portuguesa “O Médico e o Monstro”) e que já de si deu origem a variadíssimas versões cinematográficas. Mas curiosamente nenhuma com a intenção subscrita por Jerry Lewis. Na verdade, o que o romance de Stevenson pressupõe é uma interpretação psicanalítica da personalidade de cada ser humano, normalmente dividida entre duas posições, coexistentes no seu interior, predispondo-se ora para o Bem ora para o Mal, consoante uma ou outra dessas tendências se sobreponha à outra. Pode dizer-se que será um confronto entre a natureza animal do ser humano, e o seu duplo civilizado, educado, ensinado a viver em comunidade. 
No clássico de Robert Louis Stevenson o que preexiste é um cientista, um médico bem integrado na sociedade que, mercê de uma fórmula por si inventada, deixa a descoberto o lado maligno da sua personalidade. Daí “o médico e o monstro”. Mas em quase todas as versões conhecidas, o médico é um ser normal (o que é que isso quero dizer já de si), e o monstro é mesmo “monstro”, em todas as acepções do termo. Foi assim com John Barrymore, na primeira adaptação, ainda muda, assinada por John S. Robertson (1920), foi assim com Fredric March, no filme de Rouben Mamoulian (1931), continuou assim com Spencer Tracy, ao lado de Ingrid Bergman, no título de Victor Fleming, voltou a ser com Jack Palance, no telefilme de Charles Jarrott (1968), e ainda com Christopher Lee, ao lado do seu inseparável Peter Cushing, em “Eu, Monstro” (I, Monster), de Stephen Weeks (1971), ou com Kirk Douglas, na versão televisiva de David Winters (1973). 
Há dezenas e dezenas de versões, em imagem real e animação, oriundas de todos os pontos do globo, a cores e a preto e branco, quase sempre em estilo de terror, mas também em paródia, há musicais e teenagers movies, há obras-primas e coisas inenarráveis, e existe uma versão espantosa de Jean Renoir, “O Testamento do Médico e do Monstro” (Le testament du Docteur Cordelier), com uma fenomenal interpretação de Jean-Louis Barrault (1959). De resto, para muito proximamente anunciam-se, pelo menos, duas novas versões, ambas norte-americanas, assinadas por Jesse MaGill (com o próprio no protagonista), e por B. Luciano Barsuglia (com Gianni Capaldi). 
Um mundo inesgotável, mas com uma progressão dramática mais ou menos estabelecida. Jerry Lewis modifica a norma e introduz uma alteração extremamente curiosa. O professor Julius Kelp é um cientista lunático, que dá aulas na universidade, e que um dia, através de uma receita mágica por si inventada, dá corpo a Buddy Love, um ídolo de multidões, bem vestido e aprumado, egoísta até dizer basta, insuportavelmente convencido, cantor de fazer desmaiar toda a plateia feminina, e etc. O bem apresentável é um ser odioso, o despistado, temeroso e estouvado professor é afinal quem se salva como pessoa. 


Este o esquema geral de “As Noites Loucas do Dr. Jerryll” onde a inventiva e o originalidade do humor de Jerry Lewis atine um dos seus estádios mais elevados e brilhantes. Jerry é o artista completa, escreve o argumento (de colaboração com seu habitual colaborador Bill Richmond), produz, realiza e interpreta e com actor veste a pele de duas personagens extremamente diferentes, opostas mesmo, canta, dança, utiliza processos do cinema mudo, não esquece as lições que Tashlin lhe trouxe do cinema de animação, mas não esquece o som e desenvolve alguns gags puramente sonoros que se aliam magnificamente ai humor visual e gestual. Em suma, um pequeno génio do cinema cómico que se afirma ainda como um “autor” integral. Q uem vir por exemplo este filme e “The Patsy” em sessões seguidas, perceberá que ambos querem dizer o mesmo: ninguém deve querer ser o que não é. Realmente todos os filmes de Jerry estão impregnados por uma filosofia de vida óbvia, O cineasta realiza obras para toda a família, onde o humanismo predomina. Depois há várias constantes nos seus filmes. Os jovens são particularmente visados, os bailes de estudantes e de fim de curso aparecem em quase todos eles, o gosto pelo espectáculo, pelo cinema (e, neste particular, pelo cinema mudo e o burlesco) e pelos velhos comediantes é visível na homenagem que ostensivamente os elencos escolhidos representam, o amor triunfa sempre, ainda que raramente exista um happy end definitivo (“The Nutty Professor” apresenta mesmo vários finais).  

AS NOITES LOUCAS DO DR. JERRYLL 
Título original: The Nutty Professor
Realização: Jerry Lewis (EUA, 1963); Argumento: Jerry Lewis, Bill Richmond; Produção: Ernest D. Glucksman, Arthur P. Schmidt; Música: Walter Scharf; Fotografia (cor): W. Wallace Kelley; Montagem: John Woodcock; Casting: Edward R. Morse; Direcção artística: Hal Pereira, Walter H. Tyler; Decoração: Robert R. Benton, Sam Comer; Guarda-roupa: Edith Head; Maquilhagem: Nellie Manley, Jack Stone, Wally Westmore, Agnes Flanagan; Direcção de Produção: Hal Bell, William Davidson; Assistentes de realização: Ralph Axness, Jack Barry, William R. Poole; Departamento de arte: Martin Pendleton; Som: Charles Grenzbach, Hugo Grenzbach; Efeitos visuais: Paul K. Lerpae; Companhias de produção: Paramount Pictures, Jerry Lewis Enterprises; Intérpretes: Jerry Lewis (Professor Julius Kelp / Buddy Love), Stella Stevens (Stella Purdy), Del Moore (Dr. Mortimer S. Warfield), Kathleen Freeman (Millie Lemmon), Med Flory (Warzewski – jogador de futebol), Norman Alden (jogador de futebol /estudante), Howard Morris (Mr. Elmer Kelp), Elvia Allman (Edwina Kelp), Milton Frome (Dr. M. Sheppard Leevee), Buddy Lester (Barman), Marvin Kaplan, David Landfield, Skip Ward, Julie Parrish, Henry Gibson, Les Brown and His Band of Renown, Murray Alper, Roger Bacon, Todd Barron, Mel Berger, Nicky Blair, Billy Bletcher, Les Brown Jr., Mushy Callahan, Hugh Cannon, Seymour Cassel, Selette Cole, Lorraine Crawford, George DeNormand, Robert Donner, Art Gilmore (Narrador), etc. Duração: 107 minutos; Distribuição em Portugal: Lusomundo Audiovisuais; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 31 de Janeiro de 1964. 


JERRY LEWIS E A COMÉDIA NORTE-AMERICANA
A comédia americana teve, entre os anos 20 e 30 do século XX, um período particularmente brilhante, durante o qual o burlesco foi rei. São desta época os nomes de Charles Chaplin, Buster Keaton, Mack Sennett, Harold Lloyd, Irmãos Marx, W. C. Fields, Harry Langdon, Laurel e Hardy, Chester Conckin, Mack Swain, Mabel Normand, Ben Turpin, Larry Sernon, Fatty Arbuckle, Charley Chase, Andy Clyde, Louise Fazenda, Joe. E. Brown e alguns mais.
Utilizando os mais variados processos e recorrendo a figuras de características muito diversas, os actores atrás mencionados nada deixaram de pé, após a sua passagem explosiva e purificadora. Era o período das gargalhadas mortíferas que provocavam uma autêntica política de "terra queimada". Depois seguiu-se um tempo relativamente descolorido e medíocre que caracterizou as duas décadas seguintes e se prolongou ameaçadoramente pelos anos de 60. Havia ainda em 40 cineastas como Frank Capra, Leo McCarey, Frank Tashlin, Howard Hawks, George Stevens, entre outros, que nos deram comédias admiráveis. Mas nunca mais apareceu o grande cómico de completa autoria. Os homens para todo o serviço, do drama à comédia, abundavam, em contrapartida. Referimo-nos a Norman Taurog, Michael Gordon, Henry Koster, George Marshall, Normam Panama, Richard Thrope, Joshua Logan, Norman Jevison (na sua primeira fase), Charles Walters, George Sidney, etc., etc. O que não quer dizer que por vezes esses realizadores não lograssem obras de referir. Já na década de 60, como exemplo, aqui deixamos alguns títulos que melhor ilustram a permanência de um género de tradições nobres nos E.U.A: “Conversa de Travesseiro” (Michel Gordon), “Ela e os seus Maridos” (J. lee Thompson), “Uma Americana em Paris” (Robert Parrish), “O Mundo Maluco” (Stanley Krarner), “Vêm aí os Russos!” (Norman Jewison), “As Noivas do Papá” ou “Quando Ele era Ela” (Vincente Minnelli), etc.
Mas os anos de 60, para além de meia dúzia de revelações, rodam-se sob os auspícios de Billy Wilder (“Quanto Mais Quente, Melhor”, “Beija-me Idiota”, “O Apartamento”, “Irma, La Douce”, “Como Ganhar um Milhão”, “A Vida Intima de Sherlock Holmes”, “Amor à Italiana” ou “A Primeira 'Página”); Richard Quine (“Sortilégio de Amor”, “Quando Paris Delira”, “A Ingénua e o Atrevido”, “Como Matar sua Mulher”); Blake Edwards (“A Pantera Cor-de-Rosa”, “Um tiro às Escuras”, “A Grande Corrida à Volta do-Mundo”, “What Did Vou Do in the War Daddy?” ou “A Festa”) e Jerry Lewis. Sobretudo Jerry Lewis. Retomando a tradição dos grandes criadores (Chaplin, Keaton, Marx, Lloyd, etc.), Jerry Lewis foi por essa altura o único a poder ombrear com o nome dos seus geniais predecessores. Posteriormente haveria que ter em conta um autor/actor como Woody Allen (“O Inimigo Público”, “Bananas”, “O Grande Conquistador”. “O ABC do Amor”, “O Herói do Ano 2.000” e tantos outros filmes que alternam a comédia e o drama, por vezes num registo de belíssimo humor da melhor tradição judaica da língua yiddish), ou um cineasta também actor (e também judeu) como Mel Brooks (“O Falhado Amoroso”, “Balbúrdia no Oeste” ou “Frankenstein Júnior”). A verdade é que Jerry Lewis, Woody Allen e Mel Brooks asseguraram um lugar insubstituível ao "humor judeu" norte-americano. Depois do riso demolidor dos irmãos Marx, depois da turbulência exaustiva de Bucha e Estica, depois do trágico lirismo de um Chaplin ou Keaton, Jerry Lewis, sobretudo a partir de 1960 (data da sua primeira realização, “Jerry no Grande Hotel”), aparece-nos como o mais directo continuador desses cómicos geniais.
A carreira de Jerry Lewis pode dividir-se cronologicamente em três períodos de características definidas, denunciando um esforço contínuo e sistemático de renovação e superação, de amadurecimento de linguagem e enriquecimento de processos.
Quando, em 1949, Hal Wallis contrata a dupla Jerry Lewis-Dean Martin, oferecendo-lhe uma carreira na Paramount, ele pensava sobretudo em arranjar substitutos para uma outra dupla que caía progressivamente em descrédito (Abbott e Costello). Durante alguns anos, grande parte do público e a maioria da crítica teimou em ver neles sucessores menores do burlesco. Jerry Lewis, embora colocado nos “top ten” dos filmes do ano (no que se refere a receitas, logo a adesão de público), era crismado de "palhaço", mero fazedor de "caretas" gratuitas, cómico de segundo plano. Raros foram os eleitos que, para lá do aparente desinteresse de certos filmes (devido à banalidade de alguns argumentos e à mediocridade da realização de quase todos), vislumbraram uma personalidade própria, um cómico de características seguras, um actor que, de obra para obra, aperfeiçoava o seu jogo, dominava os fabulosos recursos histriónicos e gestuais, impondo uma figura e, por detrás dela, uma personalidade.
Nesta primeira época, que vai até 1956, Jerry Lewis (sempre acompanhado por Dean Martin) interpretou dezasseis títulos que, de um modo geral, parodiaram, de forma irregular e resultados variáveis, algumas instituições americanas e diversos "géneros" da cinematografia daquele país. Ele havia passado pelas forças armadas, satirizando o exército ("Recrutas... Sentido"), a marinha ("Marujo, o Conquistador"), a aviação, melhor dizendo, os paraquedistas ("Os Heróis do Medo"), e também as experiências atómicas e o sensacionalismo dos mass media ("O Rapaz Atómico"), o golf ("O Grande Jogador"), as corridas de cavalos ("Dinheiro em Caixa"), o filme de terror ("O Castelo do Terror"), o western ("O Rei do Laço"), o circo ("O Rei do Circo"), o show business ("O Estoira Vergas"), os comics, o filme de gangsters e o "musical" ("Pintores e Raparigas"), Hollywood e o star system ("Um Espada para Hollywood), etc.
À mediocridade de alguns destes filmes, opõe-se a riqueza de imaginação, a vertiginosa sucessão de gags, a fulgurante acutilância crítica de um Frank Tashlin (autor de "Pintores e Raparigas" e "Um Espada para Hollywood"), cuja colaboração com Jerry Lewis parece ter sido profundamente influente na futura carreira do actor. Somente, e por instantes, Norman Taurog se lhe assemelha, nalgumas sequências de "Os Estoiras Vergas", "O Rapaz Atómico" ou "Barbeiro e Professor". Muito, porém, do que de melhor vários destes filmes da primeira fase de Jerry Lewis comportam é-lhe ainda devido, dado que, sob diversos pseudónimos, é o actor quem interfere ao nível da criação de gags e seu desenvolvimento. Com a ruptura verificada em 1956 entre Jerry Lewis e Dean Martin (ruptura essa que é consequência em grande parte, de ciúmes deste último, em virtude do êxito popular do sócio, que lhe ensombrava a imagem), o primeiro torna-se o seu próprio produtor, rodando sob a direcção de Tashlin (de alguma forma, a partir daqui, seu "mestre espiritual"), várias obras de que é protagonista isolado: "Jerry, Ama-seca", "Jerry no Japão", "Cinderelo dos Pés Grandes", "Dinheiro e só Dinheiro", "Um Namorado com Sorte", "Jerry, Enfermeiro sem Diploma", entremeadas com outras que não se lhes comparam em importância e significado. Os contornos da figura de Jerry Lewis vão-se definindo, ganhando contextura, multiplicando-se já em heterónimos, partes de um mesmo todo que o actor pulveriza em direcções diversas. Entre a grande ingenuidade e o profundo pânico perante a realidade que o cerca e a que se não consegue adaptar facilmente, entre a pesada herança do matriarcado e o pavor do sexo oposto, entre o culto abnegado da amizade, que o conduz a situações de excessiva boa vontade (que contra ele próprio se voltam), e a crueldade da humilhação física e moral a que constantemente o sujeitam, entre a inconsciência do perigo e a solidão desesperante, Jerry vai progressivamente desenhando uma personagem que, em traços excessivos é certo, mas de rara lucidez, nos devolve a fisionomia do americano médio, povoado de temores e frustrações, aterrorizado (e fascinado) pelo envolvimento mecânico, pela agressividade do comportamento, pelos traumas colectivos. Um dia, o crítico Robert Benayoun chamou-lhe um "anti-James Dean" e com alguma razão, dado que a figura de "desadaptado" em relação à realidade social norte-americana se expressa a um nível de total desromantização, de ruptura risível. Produto de uma sociedade industrializada até à medula, competitiva ao desregramento, ele é o retrato robot desse descontrolamento geral, que em termos sociológicos se poderá chamar "alienação". Uma personagem em busca de uma identidade, de um equilíbrio impossível, eis Jerry Lewis.
A partir de 1960, à dupla responsabilidade de actor-produtor, alia a de realizador e argumentista creditado. O cómico atingiu a estatura de "autor total" e assume-se por inteiro. "Jerry no Grande Hotel" assinala a estreia e, daí em diante, dez títulos impõem-no como uma das grandes certezas não só da comédia americana, como da cinematografia moderna. Em 1963, com "As Noites Loucas do Dr. Jerryll" (que será possivelmente uma das suas obras mais perfeitas), adapta "O Médico e o Monstro", de Robert L. Stevenson e, a partir dessa base, critica asperamente uma América onde o "intelectual é vexado e ridicularizado e cujo génio é motivo para gracejos perpétuos (Julius Kelp) e onde o monstro da agressiva vulgaridade (Buddy Love) é preferido e louvado" (Benayoun dixit).

JERRY LEWIS (1926 -)
Jerry Lewis, de seu verdadeiro nome Joseph Levitch, nasceu em Newark (New Jersey), EUA, em 16 de Março de 1926. Filho de um casal de comediantes (o pai, Danny Lewis, actor de "vaudeville"; a mãe, Ray Rothberg, pianista de "cabaret"), teve uma infância atribulada, em constantes deambulações, ora sob a educação de algumas tias, ou de sua avó Sarah. Os estudos foram igualmente acidentados, tendo permanecido alguns anos na Irvington High School onde, aos catorze anos - depois de algumas aparições episódicas em "cafés-concertos" onde o pai actuava - se estreia no teatro da escola e depois no Mosque Theatre. Um dia, porém, quando um instrutor de trabalhos manuais lhe diz que "todos os judeus são estúpidos", ele responde-lhe com um vibrante soco que, obviamente, o expulsará da escola. Aos quinze anos irá procurar trabalho. Empregado de um "drugstore", vendedor de legumes, empregado numa fábrica de chapéus, são experiências que, posteriormente, irá rever em sequências de filmes seus. Em 1940, Jerry Lewis entra para os estúdios da Paramount, em Nova lorque, como operário de estúdio. Assim se inicia a viagem de aproximação de Jerry Lewis aos holofotes de cena, das luzes do espectáculo. Um dia, um actor inglês, Reginafd Gardiner, inventa-lhe um número de imitação de cantores e actores como Sinatra, Betty Hutton, Danny Kaye, etc. Em 1944, já Jerry Lewis trabalha com algum êxito nos cinemas da cadeia Paramount. Canta nas orquestras de Tommy Dorsey e de Ted Fiorito, onde encontra uma outra cantora de nome Patti Palmer, com quem vem a casar nesse mesmo ano. Com vinte anos, Jerry Lewis encontra um tal Dino Crocetti, vulgarmente conhecido por Dean Martin, com quem iria associar-se. A 25 de Julho de 1946, no Club 500, de Atlantic City, estreia-se a dupla que irá sucessivamente aparecer no Casino Latin, de Chicago, no Havana-Madrid, de Nova lorque, no Capital Theater, de Washington, no Slapey Saxie, de Hollywood, no Copacabana, de Nova lorque. Será aqui precisamente, em 1949, que o produtor Hal Wallis os irá "descobrir" e oferecer-lhes um interessante contrato de longa duração na Paramount, contrato que irá prolongar-se até 1956. Entretanto, entre 1948 e 1949, apareceram numerosas vezes na televisão, particularmente no primeiro "Toast of the Town", que se tornará mais tarde no célebre "Ed Sullivan Show" (1948). Em 1950, Jerry Lewis é eleito "Most Promising Male Star in TV" (o mais promissor actor masculino). Em 1949 aparece pela primeira vez no cinema, em “My Friend Irma”, de George Marshall. Igualmente na rádio as actuações da dupla são muito notadas, nomeadamente na "Colgate Comedy Hour". Em 1951, declaram-no "o actor mais popular de Hollywood" e, entre os anos de 51 a 54, a dupla Lewis-Martin é considerada um dos "top ten money-making stars". Em 1955, 1956 e 1959 é "mestre-de-cerimónias" na atribuição dos Oscars de Hollywood. Entretanto, em 25 de Julho de 1956, Dean Martin e Jerry Lewis, depois de alguns anos de trabalho em comum, e de algumas desavenças (sobretudo em virtude dos "ciúmes" de Martin, que se considerava ultrapassado pelo seu sócio), separam-se definitivamente, fazendo a sua última aparição em conjunto no Copacabana de Nova lorque. Em 1958, Jerry Lewis e a Paramount assinam um contrato, pelo qual o actor será obrigado a interpretar catorze filmes, à média de dois por ano. Em 1960, estreia-se como realizador em "The Bellboy". Em 1966, deixa a Paramount e toma-se um produtor independente, rodando quer para a Columbia, para a Fox, a Warner ou a United Artists.
Desde os seus inícios no cinema, Lewis fundou a sua própria produtora, "Ron-Gar" e dirigiu numerosas curtas-metragens, "pastiches" de filmes célebres (como "O Mundo a seus pés" ou "Até à Eternidade"), interpretados por si próprio e por amigos como Janet Leigh e Tony Curtis. Por outro lado, sabe-se que ele mesmo dirigiu muitos filmes e espectáculos da parelha, deixando aparecer as assinaturas de Hal Waker ou Norman Taurog para não vexar Dean Martin. Fora dos seus filmes, Jerry Lewis dá espectáculos todos os anos, durante dois meses, em Las Vegas. Na TV (onde interpretou o seu único papel em "The Jazz Singer"), além de numerosas aparições em emissões ("Today", último trabalho ao lado de Dean Martin, "Person to Person", "Youth Wants to Know", etc.), foi vedeta de "The Colgate Comedy Hour" (com Dean Martin, de 1950 a 1955), "The Martin and Lewis Show" (dirigido, entre outros, por Bud Yorkin). A 21 de Setembro de 1963, criou o "Jerry Lewis Show", filmado no "Jerry Lewis Theatre", inaugurado na circunstância. Produzido por Jerry, dirigido por John Dorsey, escrito por Lewis, Bill Richmond, Bob Howard e Dick Cavett, foi o primeiro espectáculo regular de duas horas, "em directo" da televisão americana. Participaram nos primeiros "Jerry Lewis Shows" (a série foi interrompida, em virtude de ter sido mal recebida pelos críticos, mas também porque nela apareceriam demasiados "judeus e negros"), além de J. L. e, entre outros Harry James, Dei Moore, Jimmy Durante, Bob Stack, Jack Jones, Sammy Davis Jr., Les Browns e a orquestra, Carl Reiner, Mickey Rooney, Peter Falk, Sid Caesar, Stanley Kramer, etc.
Jerry Lewis possui uma estação de rádio privada: a K.J.P.L.É ainda a figura principal de um magazine de "histórias em quadradinhos" que tem o seu nome. Gravou igualmente vários discos e fundou um curso de arte dramática. Utiliza os alunos nos seus filmes. Todas as películas interpretadas por Jerry Lewis (até 1965) foram produzidas pela Paramount, em geral por Hal Wallis e depois pelo próprio Jerry Lewis. A sua casa produtora chamou-se primeiramente York-Films e depois Jerry Lewis Films Incorporated. A partir de 1965, o actor preferiu produzir inteiramente os seus filmes e entregá-los depois a uma companhia que os distribui internacionalmente. Caso da Columbia, para “Uma Poltrona para Três” e “O Charlatão”; caso de United Artists para “One More Time”, por exemplo.
Jerry tentou igualmente a construção de uma cadeia de pequenos cinemas. Os E.U.A. e o Canadá chegaram a contar mais de cem salas e inaugurou o primeiro "Jerry Lewis Cinema" na Europa, em Paris. A partir dos anos 70, a sua estrela deixou de brilhar tão intensamente. Filmes como “Vai Trabalhar, Malandro!” ou “Jerry Tu és Louco” foram relativos fracassos de bilheteira. Alguns cineastas lembram-se dele para aparições de homenagem, como em “O Rei da Comédia”, de Martin Scorsese (1982), “Cookie”, de Susan Seidelman (1989), “Sábado à Noite”, de Billy Crystal e “Arizona”, de Emir Kusturica (ambos de 1992) ou “Comédia Louca”, de Peter Chelsom (1995). Presentemente anunciam-se projectos onde vai surgir: “The Trust”, de Alex Brewer, Ben Brewer (2016), ou “Big Finish”, do argentino Martin Guigui (em preparação).

Principais filmes:
1. Filmes da dupla Jerry Lewis / Dean Martin
1949: My Friend Irma (A Minha Amiga Irma), de George Marshall; 1950: My Friend Irma Goes West (A Minha Amiga Maluca), de Hal Walker; At War with the Army (Recrutas...Sentido!), de Hal Walker; That's My Boy (Eles no Colégio), de Hal Walker; 1952: Sailor Beware (Marujo, o Conquistador), de Hal Walker; Jumping Jacks (Os Heróis do Medo), de Norman Taurog; 1953: The Stooge (O Estoira-Vergas), de Norman Taurog; Scared Stiff (O Castelo do Terror), de George Marshall; The Caddy (O Grande Jogador), de Norman Taurog; 1954: Money From Home (Dinheiro em Caixa), de George Marshall; Living it Up (O Rapaz Atómico), de Norman Taurog; Three Ring Circus (O Rei do Circo), de Joseph Pevney; 1955: You're Never Too Young (Barbeiro e Professor), de Norman Taurog; Artists And Models IPintores e Raparigas), de Frank Tashlin; 1956: Pardners (O Rei do Laço), de Norman Taurog; Hollywood or Bust (Um Espada para Hollywood), de Frank Tashlin.

2. Filmes protagonizados por Jerry Lewis
1957: The Delicate Delinquent (O Delinquente Delicado), de Don McGuire; The Sad Sack (O Herói do Regimento), de George Marshall; 1958: Rock A Bye Baby (Jerry Ama-Seca), de Frank Tashlin; The Geisha Boy (Jerry no Japão), de Frank Tashlin; 1959: Don't Give Up the Ship (Capitão sem Barco), de Normal Taurog; 1960: Visit to a Small Planet (O Primeiro Turista do Espaço), de Norman Taurog; Cinderella (Cinderelo dos Pés Grandes), de Frank Tashlin; 1962: It's Only Money (Dinheiro e Só Dinheiro), de Frank Tashlin; 1963: Who's Minding the Store (Um Namorado com Sorte), de Frank Tashlin; 1964: The Disorderly Orderly (Jerry, Enfermeiro sem Diploma), de Frank Tashlin; 1965: Boeing-Boeing (Boeinq-Boeinq), de John Rich; 1966: Way ... Way Out (Um Maluco em Órbita), de Gordon Douglas; 1968: Don't Raise The Bridge, Lower The River (Jerry em Londres), de Jerry Paris; 1969: Hook, Llne And Sinker (Jerry, Pescador em Águas Turvas), de George Marshall;
Para além destes filmes, onde Jerry Lewis desempenha sempre o principal papel, outros houve onde fez curtas aparições, como guest star: 1959: Lll'Abner (No País da Alegria), de Norman Panama; 1963: It's A Mad, Mad, Mad, Mad World (0 Mundo Maluco), de Stanley Kramer; 1982: “The King of Comedy” (O Rei da Comédia), de Martin Scorsese; 1989: “Cookie”, de Susan Seidelman, 1992: “Mr. Saturday Night” (Sábado à Noite), de Billy Crystal e “Arizona”, de Emir Kusturica, ou 1995: “Funny Bones” (Comédia Louca), de Peter Chelsom). 

3. Realizações de Jerrv Lewis

1960: The Bellboy (Jerry no Grande Hotel); 1961: The Ladie's Man (0 Homem das Mulheres); The Errand Boy (O Mandarete);1963: The Nutty Professor (As Noites do Dr. Jerryl); 1964: The Patsy (Jerry 8 3/4); 1965: The Family Jewels (Jerry e os 6 Tios); 1966: Three on a Couch (Uma Poltrona para Três); 1967: The Big Mouth (0 Charlatão); 1969: Which Way to the Front? (0nde Fica a Guerra?); 1970: One More Time (0 Morto Era o Outro); 1972: Le Jour ou le Clown Pleura (filme congelado por um diferendo entre o produtor e J. Lewis); 1980: Hardly Working (Vai Trabalhar, Malandro!); 1983: Smorgasbord (Jerry, Tu és Louco).

domingo, 21 de maio de 2017

JERRY 8 3/4


JERRY 8 3/4 (1964)

Com “The Nutty Professor” (As Noites do Dr. Jerryl), de 1963, “The Patsy” (Jerry 8 3/4), do ano seguinte, Jerry Lewis afirma-se não só como um dos grandes génios da comédia cinematográfica, mas igualmente como um grande cineasta e um autor completo. Ele não é só o actor que reinventa um género, mas também um argumentista talentoso e extremamente inteligente e, ao mesmo tempo, um realizador subtil, sensível, inovador, moderno. 
“The Patsy” em português pode ter várias interpretações, desde pacóvio, tolo, ingénuo, trouxa, bode expiatório mas, em todas elas, acabará por resumir-se a alguém que, pelas suas características, facilmente se deixa enganar. O título português procura apanhar o impacto de Fellini 8 ½, estreado anos antes, para o associar a esta obra de Jerry que também se passa no mundo do cinema. Não é a Cinecittà de Fellini, mas Hollywood. A Hollywood dos sonhos de Malcolm Smith, um certo cinéfilo fanático de “Um Espada para Hollywood” que agora surge na figura de um empregado de hotel na meca do cinema, que um dia se descobre elevado à categoria de estrela do mundo do espectáculo, sem que tenha feito nada para isso.


Na verdade, nas imagens iniciais a câmara acompanha o despenhar de um avião e sabe-se depois que entre os passageiros se encontrava o célebre comediante Wally Brandford. Os jornais choram a morte do popular actor, mas a sua equipa chora o facto de poder vir a ficar sem emprego. Quem escreve os guiões, quem trata do marketing, quem responde ao correio, quem se ocupa da imagem do actor, quem apura a voz ou quem examina os contratos, sem actor fica desempregado. A menos que surja rapidamente alguém que o substitua. Mas quem pode ser esse alguém, que seja suficientemente ingénuo e manejável para se adaptar ao papel? É nessa altura da reunião que entra Stanley Belt (Jerry Lewis) com a bandeja com taças e champanhe para a equipa afastar as mágoas. A entrada é, como se espera, a mais desastrada possível e Stanley é desde logo olhado como possível sucessor do defunto. E todos se aprestam em transforar o desajeitado bell boy num actor de primeiríssima água. Lições de dicção, de música, de arte de representar, de boas maneiras, idas ao alfaiate das vedetas (onde Stanley Belt quer fatos ao jeito de George Raft e descobre ali ao lado o seu intérprete preferido), visitas a cabeleireiros de nomeada, tudo fazem os membros da equipa para não ficarem no desemprego. Mas a personagem visada não mostra qualquer tipo de progressos nesta difícil arte de ser quem não é. Ele é duro de ouvido para gravar canções, mas a oportunidade é excelente para se assistir a um fabuloso trio de cantoras, todas elas interpretadas por Jerry Lewis de forma magistral. Dão-se festas de lançamento da nova coqueluche de Hollywood, o que permite a Stanley recordar outros bailes da sua juventude onde tudo corre mal. Mas na festa cruza-se com Hedda Hopper, a própria, uma das mais célebres bisbilhoteiras de Los Angeles, a quem faz notar o horrível chapéu que exibe. Ela acha graça e começa a lançar as bases da moralidade do filme: a autenticidade é o mais importante a vida. Só quando Stanley se descobre igual a si próprio, durante um “The Ed Sullivan Show”, é que a magia nasce. “Tentaram transformar-me no que não sou”, lamenta-se Stanley Belt. O argumento de Jerry Lewis e Bill Richmond é extremamente bem desenvolvido e inteligente na forma como analisa alguns aspectos da máquina de criar e triturar vedetas do mundo do “show business”, no artificialismo desta fábrica de sonhos (a cena final procura mesmo “mostrar” como realidade e ficção se podem associar na manipulação do espectador). A fotografia de W. Wallace Kelleyé magnífica, bem como o cuidado posto na decoração e nos ambientes. Na interpretação, Jerry Lewis procura obviamente homenagear alguns grandes actores como Peter Lorre, Everett Sloane, Phil Harris, Keenan Wynn, John Carradine ou a jovem e bonita Ina Balin, que constituem a equipa órfã de vedeta, mas também uma série de outros que aparecem fugazmente nos chamados “cameos” e que vão dos já citados George Raft, Hedda Hopper ou Ed Sullivan, a Ed Wynn, Mel Tormé, Rhonda Fleming, Scatman Crothers, Phil Foster, Billy Beck, Hans Conried, Richard Deacon, Del Moore, Neil Hamilton, Buddy Lester, Nancy Kulp, Norman Alden, Jack Albertson, Richard Bakalyan, Jerry Dunphy, Kathleen Freeman, Norman Leavitt, Eddie Ryder, Lloyd Thaxton, Lorne Greene, Pernell Roberts, Michael Landon, Dan Blocker e Fritz Feld. Até o argumentista Bill Richmond tem uma curta aparição, como pianista. Personalidades umas mais conhecidas do grande público do que outras (mas todas bastante reconhecíveis para as plateias norte-americanas), o seu aparecimento nesta obra é um óbvio reconhecimento do seu talento e uma justa homenagem do cineasta aos seus pares. Este foi o último filme de Peter Lorre, que morre antes da sua estreia, e um dos derradeiros de Everett Sloane (este actor desaparece depois de integrar outro filme ao lado de Jerry Lewis, “The Disorderly Orderly”, igualmente de 1964). 
“The Patsy” inicialmente chamava-se “Son of Bellboy”, procurando de certa forma ser uma continuação de “The Bellboy” (Jerry no Grande Hotel), primeira realização de Jerry Lewis em 1960. Inclusive o protagonista de ambos chama-se Stanley. 
Curiosidades extras: a cena inicial do desastre de avião foi inicialmente rodada para "The Mountain" (A Montanha), de Edward Dmytryk (1956). Introduzida com aproposito nesta obra. Existe um filme de 1928, interpretado por Marion Davies, chamado igualmente “The Patsy”. Nada a ver com este.
JERRY 8 3/4 
Título original: The Patsy 
Realização: Jerry Lewis (EUA, 1964); Argumento: Jerry Lewis, Bill Richmond; Produção: Ernest D. Glucksman, Arthur P. Schmidt; Música: David Raksin; Fotografia (cor):W. Wallace Kelley; Montagem: John Woodcock; Casting: Edward R. Morse; Direcção artística: Cary Odell, Hal Pereira; Decoração: Sam Comer, Ray Moyer; Guarda-roupa: Edith Head; Maquilhagem: Nellie Manley, Wally Manley, Harry Ray, Jack Stone, Wally Westmore; Direcção de Produção: William Davidson; Assistentes de realização: Ralph Axness, Dale Coleman, Howard Roessel; Departamento de arte: Jim Cottrell, Earl Olin, Gene Lauritzen, Martin Pendleton; Som: Howard Beals, Charles Grenzbach, Hugo Grenzbach, Bud Parman; Efeitos visuais: Farciot Edouart, Paul K. Lerpae; Companhias de produção: Paramount Pictures, Patti Enterprises; Intérpretes: Jerry Lewis (Stanley Belt / SingCantoras do Trio), Ina Balin (Ellen Betz), Everett Sloane (Caryl Fergusson), Phil Harris (Chic Wymore), Keenan (Harry Silver), Peter Lorre (Morgan Heywood), John Carradine (Bruce Alden), Hans Conried (Prof. Mulerr), Richard Deacon (Sy Devore), Del Moore (policia), Scatman Crothers (engraxador), Neil Hamilton (barbeiro), Buddy Lester, Nancy Kulp, Lloyd Thaxton, Norman Alden, Jack Albertson, Henry Slate, Gavin Gordon, Ned Wynn, Rhonda Fleming (Rhonda Fleming), Phil (Mayo Sloan), Hedda Hoppe (Hedda Hopper), George Raft (George Raft), Mel Tormé (Mel Tormé), Ed Wynn (Ed Wynn), Ed Sullivan (Ed Sullivan), The Four Step Brothers (The Step Brothers), etc. Duração: 101 minutos; Distribuição em Portugal: Lusomundo Audiovisuais; Classificação etária: M/ 6 anos. 



JERRY LEWIS E A COMÉDIA NORTE-AMERICANA
A comédia americana teve, entre os anos 20 e 30 do século XX, um período particularmente brilhante, durante o qual o burlesco foi rei. São desta época os nomes de Charles Chaplin, Buster Keaton, Mack Sennett, Harold Lloyd, Irmãos Marx, W. C. Fields, Harry Langdon, Laurel e Hardy, Chester Conckin, Mack Swain, Mabel Normand, Ben Turpin, Larry Sernon, Fatty Arbuckle, Charley Chase, Andy Clyde, Louise Fazenda, Joe. E. Brown e alguns mais.
Utilizando os mais variados processos e recorrendo a figuras de características muito diversas, os actores atrás mencionados nada deixaram de pé, após a sua passagem explosiva e purificadora. Era o período das gargalhadas mortíferas que provocavam uma autêntica política de "terra queimada". Depois seguiu-se um tempo relativamente descolorido e medíocre que caracterizou as duas décadas seguintes e se prolongou ameaçadoramente pelos anos de 60. Havia ainda em 40 cineastas como Frank Capra, Leo McCarey, Frank Tashlin, Howard Hawks, George Stevens, entre outros, que nos deram comédias admiráveis. Mas nunca mais apareceu o grande cómico de completa autoria. Os homens para todo o serviço, do drama à comédia, abundavam, em contrapartida. Referimo-nos a Norman Taurog, Michael Gordon, Henry Koster, George Marshall, Normam Panama, Richard Thrope, Joshua Logan, Norman Jevison (na sua primeira fase), Charles Walters, George Sidney, etc., etc. O que não quer dizer que por vezes esses realizadores não lograssem obras de referir. Já na década de 60, como exemplo, aqui deixamos alguns títulos que melhor ilustram a permanência de um género de tradições nobres nos E.U.A: “Conversa de Travesseiro” (Michel Gordon), “Ela e os seus Maridos” (J. lee Thompson), “Uma Americana em Paris” (Robert Parrish), “O Mundo Maluco” (Stanley Krarner), “Vêm aí os Russos!” (Norman Jewison), “As Noivas do Papá” ou “Quando Ele era Ela” (Vincente Minnelli), etc.
Mas os anos de 60, para além de meia dúzia de revelações, rodam-se sob os auspícios de Billy Wilder (“Quanto Mais Quente, Melhor”, “Beija-me Idiota”, “O Apartamento”, “Irma, La Douce”, “Como Ganhar um Milhão”, “A Vida Intima de Sherlock Holmes”, “Amor à Italiana” ou “A Primeira 'Página”); Richard Quine (“Sortilégio de Amor”, “Quando Paris Delira”, “A Ingénua e o Atrevido”, “Como Matar sua Mulher”); Blake Edwards (“A Pantera Cor-de-Rosa”, “Um tiro às Escuras”, “A Grande Corrida à Volta do-Mundo”, “What Did Vou Do in the War Daddy?” ou “A Festa”) e Jerry Lewis. Sobretudo Jerry Lewis. Retomando a tradição dos grandes criadores (Chaplin, Keaton, Marx, Lloyd, etc.), Jerry Lewis foi por essa altura o único a poder ombrear com o nome dos seus geniais predecessores. Posteriormente haveria que ter em conta um autor/actor como Woody Allen (“O Inimigo Público”, “Bananas”, “O Grande Conquistador”. “O ABC do Amor”, “O Herói do Ano 2.000” e tantos outros filmes que alternam a comédia e o drama, por vezes num registo de belíssimo humor da melhor tradição judaica da língua yiddish), ou um cineasta também actor (e também judeu) como Mel Brooks (“O Falhado Amoroso”, “Balbúrdia no Oeste” ou “Frankenstein Júnior”). A verdade é que Jerry Lewis, Woody Allen e Mel Brooks asseguraram um lugar insubstituível ao "humor judeu" norte-americano. 
Depois do riso demolidor dos irmãos Marx, depois da turbulência exaustiva de Bucha e Estica, depois do trágico lirismo de um Chaplin ou Keaton, Jerry Lewis, sobretudo a partir de 1960 (data da sua primeira realização, “Jerry no Grande Hotel”), aparece-nos como o mais directo continuador desses cómicos geniais. 
A carreira de Jerry Lewis pode dividir-se cronologicamente em três períodos de características definidas, denunciando um esforço contínuo e sistemático de renovação e superação, de amadurecimento de linguagem e enriquecimento de processos. 
Quando, em 1949, Hal Wallis contrata a dupla Jerry Lewis-Dean Martin, oferecendo-lhe uma carreira na Paramount, ele pensava sobretudo em arranjar substitutos para uma outra dupla que caía progressivamente em descrédito (Abbott e Costello). Durante alguns anos, grande parte do público e a maioria da crítica teimou em ver neles sucessores menores do burlesco. Jerry Lewis, embora colocado nos “top ten” dos filmes do ano (no que se refere a receitas, logo a adesão de público), era crismado de "palhaço", mero fazedor de "caretas" gratuitas, cómico de segundo plano. Raros foram os eleitos que, para lá do aparente desinteresse de certos filmes (devido à banalidade de alguns argumentos e à mediocridade da realização de quase todos), vislumbraram uma personalidade própria, um cómico de características seguras, um actor que, de obra para obra, aperfeiçoava o seu jogo, dominava os fabulosos recursos histriónicos e gestuais, impondo uma figura e, por detrás dela, uma personalidade. 
Nesta primeira época, que vai até 1956, Jerry Lewis (sempre acompanhado por Dean Martin) interpretou dezasseis títulos que, de um modo geral, parodiaram, de forma irregular e resultados variáveis, algumas instituições americanas e diversos "géneros" da cinematografia daquele país. Ele havia passado pelas forças armadas, satirizando o exército ("Recrutas... Sentido"), a marinha ("Marujo, o Conquistador"), a aviação, melhor dizendo, os paraquedistas ("Os Heróis do Medo"), e também as experiências atómicas e o sensacionalismo dos mass media ("O Rapaz Atómico"), o golf ("O Grande Jogador"), as corridas de cavalos ("Dinheiro em Caixa"), o filme de terror ("O Castelo do Terror"), o western ("O Rei do Laço"), o circo ("O Rei do Circo"), o show business ("O Estoira Vergas"), os comics, o filme de gangsters e o "musical" ("Pintores e Raparigas"), Hollywood e o star system ("Um Espada para Hollywood), etc. 
À mediocridade de alguns destes filmes, opõe-se a riqueza de imaginação, a vertiginosa sucessão de gags, a fulgurante acutilância crítica de um Frank Tashlin (autor de "Pintores e Raparigas" e "Um Espada para Hollywood"), cuja colaboração com Jerry Lewis parece ter sido profundamente influente na futura carreira do actor. Somente, e por instantes, Norman Taurog se lhe assemelha, nalgumas sequências de "Os Estoiras Vergas", "O Rapaz Atómico" ou "Barbeiro e Professor". Muito, porém, do que de melhor vários destes filmes da primeira fase de Jerry Lewis comportam é-lhe ainda devido, dado que, sob diversos pseudónimos, é o actor quem interfere ao nível da criação de gags e seu desenvolvimento. Com a ruptura verificada em 1956 entre Jerry Lewis e Dean Martin (ruptura essa que é consequência em grande parte, de ciúmes deste último, em virtude do êxito popular do sócio, que lhe ensombrava a imagem), o primeiro torna-se o seu próprio produtor, rodando sob a direcção de Tashlin (de alguma forma, a partir daqui, seu "mestre espiritual"), várias obras de que é protagonista isolado: "Jerry, Ama-seca", "Jerry no Japão", "Cinderelo dos Pés Grandes", "Dinheiro e só Dinheiro", "Um Namorado com Sorte", "Jerry, Enfermeiro sem Diploma", entremeadas com outras que não se lhes comparam em importância e significado. Os contornos da figura de Jerry Lewis vão-se definindo, ganhando contextura, multiplicando-se já em heterónimos, partes de um mesmo todo que o actor pulveriza em direcções diversas. Entre a grande ingenuidade e o profundo pânico perante a realidade que o cerca e a que se não consegue adaptar facilmente, entre a pesada herança do matriarcado e o pavor do sexo oposto, entre o culto abnegado da amizade, que o conduz a situações de excessiva boa vontade (que contra ele próprio se voltam), e a crueldade da humilhação física e moral a que constantemente o sujeitam, entre a inconsciência do perigo e a solidão desesperante, Jerry vai progressivamente desenhando uma personagem que, em traços excessivos é certo, mas de rara lucidez, nos devolve a fisionomia do americano médio, povoado de temores e frustrações, aterrorizado (e fascinado) pelo envolvimento mecânico, pela agressividade do comportamento, pelos traumas colectivos. Um dia, o crítico Robert Benayoun chamou-lhe um "anti-James Dean" e com alguma razão, dado que a figura de "desadaptado" em relação à realidade social norte-americana se expressa a um nível de total desromantização, de ruptura risível. Produto de uma sociedade industrializada até à medula, competitiva ao desregramento, ele é o retrato robot desse descontrolamento geral, que em termos sociológicos se poderá chamar "alienação". Uma personagem em busca de uma identidade, de um equilíbrio impossível, eis Jerry Lewis. 
A partir de 1960, à dupla responsabilidade de actor-produtor, alia a de realizador e argumentista creditado. O cómico atingiu a estatura de "autor total" e assume-se por inteiro. "Jerry no Grande Hotel" assinala a estreia e, daí em diante, dez títulos impõem-no como uma das grandes certezas não só da comédia americana, como da cinematografia moderna. Em 1963, com "As Noites Loucas do Dr. Jerryll" (que será possivelmente uma das suas obras mais perfeitas), adapta "O Médico e o Monstro", de Robert L. Stevenson e, a partir dessa base, critica asperamente uma América onde o "intelectual é vexado e ridicularizado e cujo génio é motivo para gracejos perpétuos (Julius Kelp) e onde o monstro da agressiva vulgaridade (Buddy Love) é preferido e louvado" (Benayoun dixit). 

domingo, 14 de maio de 2017

UM ESPADA PARA HOLLYWOOD


UM ESPADA PARA HOLLYWOOD 
(1956)

Antes da sua actividade a solo, como actor, argumentista, por vezes produtor, quase sempre realizador, Jerry Lewis teve um período durante o qual dividiu o protagonismo com Dean Martin, constituindo-se assim numa dupla que teve grande sucesso. A dupla surge em 1949, em “A Minha Amiga Irma” (My Friend Irma), de George Marshall, e dura 17 títulos e sete anos, precisamente até 1956, quando rodam “Hollywood or Bust”, tendo depois cada um dos actores seguido carreiras a solo bem-sucedidas. Dean Martin era o romântico sedutor que cantava melodias seguramente bem xaroposas e Jerry Lewis era invariavelmente o desajeitado bem-intencionado que punha tudo de pantanas com a sua inabilidade. A dupla funcionava com a complementaridade habitual destes casos (Bucha e Estica, Abbott e Costelo, etc.) e lançou filmes quase sempre de riso seguro, mas nem sempre de qualidade cinematográfica inabalável. Por vezes alguns cineastas mais hábeis conseguiam unir o útil ao agradável e geraram-se então obras muito interessantes. Norman Panama ou Frank Tashlin estão neste caso, sobretudo este último, que dirige exactamente “Um Espada Para Hollywood”. 


Esta é a história de Malcolm Smith, um cinéfilo fanático que sonha com Anita Ekberg, uma das vamps mais em voga no cinema internacional (que o diga a sua participação em “Fellini 8 ½”, quatro anos depois). Esta é igualmente a história de Steve Wiley, um pequeno burlão a contas com uma dívida de 3000 dólares contraída junto de um mafioso violento. Um e outro encontram-se na plateia de um teatro de Nova Iorque onde se sorteia um daqueles carros americanos a que se chamava “espada”. Malcolm Smith comprou quase todas as rifas, porque quer ir a Hollywood encontrar-se com a sua actriz preferida. Steve Wiley falsificou todas as rifas, duplicando-as, por forma a antecipar-se a todos os concorrentes, ganhar o carro e fugir para a costa oeste. Surgem assim dois vencedores, uma mesma viagem repartida, um a cantar canções delicodoces, o outro a protagonizar as maiores trapalhadas sempre com a melhor das boas vontades e um tique muito especial para acertar na máquina do jackpot. A viagem de uma costa à outra dos EUA é um desfile de Estados, usos e costumes, paisagens e pin ups indescritíveis, com acidentes e peripécias ilimitadas (desde a velhinha assaltante até ao touro que Jerry toma por vaca leiteira), criando uma sucessão de gags bastante bem explorados pela câmara de Tashlin. Kitsch? Sim, e de que maneira! Mas em muitos dos casos um kitsch assumido e crítico, noutros uma poeira dos tempos que também merece ser apreciada. O genérico é desde logo delicioso e a apresentação de Dean Martin dos cinéfilos das diferentes latitudes do mundo uma obra-prima, onde Jerry Lewis se multiplica em personagens magníficas. Só esse início merece o bilhete. Mas o resto situa-se a muito bom nível e antecipa o grande Jerry que viria a seguir. 


UM ESPADA PARA HOLLYWOOD 
Título original: Hollywood or Bust
Realização: Frank Tashlin (EUA, 1956); Argumento: Erna Lazarus, Frank Tashlin; Produção: Paul Nathan, Hal B. Wallis; Música: Walter Scharf; Fotografia (cor): Daniel L. Fapp; Montagem: Howard A. Smith; Direcção artística: Henry Bumstead, Hal Pereira; Decoração: Fay Babcock, Sam Comer; Guarda-roupa: Edith Head; Maquilhagem: Wally Westmore; Assistentes de realização: James A. Rosenberger, William Watson, Charles C. Coleman, Gary Nelson; Som: Gene Garvin, Hugo Grenzbac; Efeitos visuais: Farciot Edouart, John P. Fulton; Companhias de produção: Paramount Pictures; Intérpretes: Dean Martin (Steve Wiley), Jerry Lewis (Malcolm Smith), Pat Crowley (Terry Roberts), Max 'Slapsie Maxie' Rosenbloom (Bookie Benny), Anita Ekberg (Anita), Valerie Allen, Leon Alton, Adelle August, Nick Borgani, Paul Bradley, Catherine Brousset, Drew Cahill, Kathryn Card, Paul Cristo, Jack Deery, Jack Delrio, Beach Dickerson, Alphonso DuBois, Minta Durfee, Dominic Fidelibus, Rudy Germane, Joe Gray, Sam Harris, Frank Wilcox, etc. Duração: 95 minutos; Distribuição em Portugal (DVD): Feel Films; Classificação etária: M/ 12 anos.

FRANK TASHLIN 
(1913-1972)
Frank Tashlin, cujo nome de baptismo era Francis Fredrick von Taschlein, nasceu a 19 de Fevereiro de 1913 em Weehawken, New Jersey, EUA, e morreu a 5 de Maio de 1972, em Los Angeles, Califórnia, EUA. Iniciou a sua carreira, nos anos 30 do século XX, como desenhador sob o comando de Paul Terry, na série de animação “Aesop's Film Fables”, passando depois pelo produtor Amadee J. Van Beuren, e pelos estúdios da Warner Bros. Em 1934 cria uma série, “Van Boring”, que ficou a dever muito ao seu anterior mestre Van Beuren. Continua nos estúdios de Ub Iwerks, depois é contratado por Hal Roach como argumentista e criador de gags. Em 1938, vamos encontrá-lo já a trabalhar para Walt Disney, ainda como argumentista, saltando para a Columbia Pictures em 1941, acumulando funções de produção. Mas a animação não o abandona e, em 1943, volta à Warner, onde desenvolve avultado trabalho. São deste tempo, durante a II Guerra Mundial, os cartoons do soldado Snafu. Abandona a animação e dedica-se sobretudo à tarefa de gagman para os Marx Brothers e Lucille Ball ou de escritor de argumento para filmes de Bob Hope ou Red Skelton. Depois de dezenas de curtas-metragens, estreia-se na realização de filmes de fundo, em 1951, com “O Vigarista” (The Lemon Drop Kid), com Bob Hope, mas não aparece creditado no genérico (a realização surge assinada por Sidney Lanfield). A sua primeira longa-metragem é por isso “The First Time”, do ano seguinte. Autor dedicado sobretudo ao humor, para onde importa muito da sua experiência como criador de animação e gagman, Tashlin assina um belo conjunto de comédias como “The Girl Can't Help It”, “Artists and Models”, “Hollywood or Bust”, “Will Success Spoil Rock Hunter?”, “Rock-A-Bye Baby”, “The Geisha Boy”, “Cinderfella”, “It's Only Money”, “Who's Minding the Store?” ou "The Disorderly Orderly". Muitos destes títulos marcam a carreira de Jerry Lewis a solo, sendo que Tashlin é um dos seus mestres incontestáveis. Ainda dirigiu alguns outros filmes interessantes, mas a sua carreira decaiu a partir de meados da década 60. “The Man from the Diners' Club”, com Danny Kaye, "The Alphabet Murders” ou "The Glass Bottom Boat" são títulos ainda a registar. 

Principais filmes: Como realizador inicia-se, entre 1933 e 1947, com dezenas de curtas-metragens de animação e algumas em imagem real. Em 1951, estreia-se na longa-metragem com “The Lemon Drop Kid”, mas o seu nome desaparece do genérico. “The First Time” é o seu primeiro filme de fundo, a que se segue “Son of Paleface” (O Filho do Valentão), ambos de 1952. Outros títulos importantes: 1954: Susan Slept Here (As Três Noites de Susana); 1955: Artists and Models (Artistas e Raparigas); 1956: The Lieutenant Wore Skirts (O Tenente Usava Saias); The Girl Can’t Help It (Uma Rapariga com Sorte); Hollywood or Bust (Um Espada para Hollywood); 1957: Will Success Spoil Rock Hunter? (A Loira Explosiva); 1958: Rock-a-Bye Baby (Jerry Ama-Seca); The Geisha Boy (Jerry no Japão); 1959: Say One for Me (O Céu por Testemunha); 1960: Cinderfella (Cinderelo dos Pés Grandes); 1961: Snow White and the Three Stooges (Branca de Neve e os três Estarolas (não creditado); 1963: Who’s Minding the Store? (Um Namorado com Sorte); The Man from the Diners' Club (O Homem do Diners' Club); 1964: The Disorder Orderly (Jerry, Enfermeiro sem Diploma); 1965: The Alphabet Murders (O Alfabeto do Crime); 1966: The Glass Bottom Boat (Espia em Calcinhas de Renda); 1967: Caprice (Um Perigo Chamado Capricho).

sábado, 6 de maio de 2017

A FESTA


A FESTA (1968)

Há muitas formas de construir as comédias, mas, de um modo geral, a estrutura é muito semelhante. O mundo, a sociedade, organiza-se de uma certa maneira, parece que a normalidade é a harmonia, até que, normalmente pela inclusão de um intruso, tudo se desorganiza. Dessa desorganização brota invariavelmente uma crítica ao que anteriormente parecia tão organizado e afinal não estava. Era só fachada. Vejam-se três filmes de Blake Edwards, como exemplo. Em “A Grande Corrida à Volta do Mundo” tudo seria perfeito se não aparecesse a figura do Professor Fate que desencadeia a loucura com as suas (falhadas) malfeitorias; em “A Pantera Cor-de-Rosa” e continuações, o mundo giraria correctamente, não fora surgir o inspector Clouseau para instaurar o caos; em “A Festa”, será o desastrado Hrundi V. Bakshi a fazer implodir a “party” organizada pelo produtor de Hollywood, ao mesmo tempo que põe a descoberto algumas mediocridades reinantes.
A comédia é por isso um dos mais contundentes meios de analisar e criticar os usos e costumes (normalmente os maus usos e maus costumes) da sociedade (ou das sociedades, que há para todos os gostos). O que Blake Edwards aproveita bem, sobretudo para chamuscar o universo de Hollywood, neste “A Festa”, de forma um pouco marginal, em “S.O.B.”, por exemplo, de maneira bem contundente.
Hrundi V. Bakshi (Peter Sellers) é um anónimo figurante de cinema que vamos encontrar a tocar cornetim tem a India como cenário, mas efectivamente é filmada em terrenos de Los Angeles. Se é figurante, não perde, porém, uma oportunidade para se fazer notar. Apesar de receber rajadas de tiros, levanta-se sempre e continua a tocar, até arruinar por completo as filmagens ao fazer explodir antes de tempo um forte. Expulso do cenário e reportado o caso ao produtor do filme, este anota o nome do proscrito numa folha de papel que por acaso é a lista de convidados para uma festa em casa do produtor. É assim que o desastrado, mas bem-intencionado, Hrundi V. Bakshi se descobre no interior de uma majestosa mansão repleta de convidados do mundo do espectáculo. Claro que se tudo aponta para dar para o torto, tudo dá mesmo para o torto, mas em grande. 


Deve dizer-se que a mansão lembra em muito o universo de Jacques Tati, sobretudo nesse fabuloso “O Meu Tio”. A estrutura arquitectónica da sumptuosa casa do magnata de Hollywood é realmente de gosto muito discutível, com diversos adereços “modernos” e gadgets para todos os pretextos. Obviamente que o desajeitado Hrundi V. Bakshi irá passar por todos os momentos de apuros extremos, numa sucessão de gags irresistíveis, brilhantemente vividos por um Peter Sellers em excelente forma, muito bem acompanhado por Steve Franken que interpreta a figura de um empregado de mesa muito dado à bebida e que vai aproveitando em proveito próprio cada taça, copo ou flute recusados por um convidado. Mas todos os gags são desenvolvidos com a precisão de um relojoeiro. Na verdade, este é um caos organizado ao milímetro. Tudo falha, tudo se precipita, mas tudo parece planificado para que falhe e se desmorone. Hrundi V. Bakshi saltita de pedra em pedra com o riacho a correr por baixo, mas o gag não é o que se espera, mas outro. O humor é subtil e quase sempre inesperado, apesar de tudo ser esperado.
Os temas preferidos de Blake Edwards estão todos presentes, desde Hollywood como cenário e tema dominante de crítica, até ao slapstick do cinema mudo e ao esquema do desenho animado. A época são os anos 60 e o flower power, o que fica bem documentado na entrada extravagante dos jovens hippies que trazem consigo um pequeno elefante psicadélico. De resto, o liberal mundo de Hollywood está bem representado pela vedeta masculina, que exibe a sua virilidade, o produtor, o realizador, as estrelas em ascensão e o figurante intrometido (sem culpa própria, diga-se).
Uma belíssima comédia, das melhores que o cinema norte-americano nos deu nas décadas finais do século XX.

A FESTA
Título original: The Party
Realização: Blake Edwards (EUA, 1968); Argumento: Blake Edwards, Tom Waldman, Frank Waldman; Produção: Blake Edwards, Ken Wales, Walter Mirisch; Música: Henry Mancini; Fotografia (cor): Lucien Ballard; Montagem: Ralph E. Winters; Design de produção: Fernando Carrere; Decoração: Reg Allen, Jack Stevens; Guarda-roupa: Jack Bear; Maquilhagem: Alice Monte, Allan Snyder, Lynn F. Reynolds, Pat Whiffing; Direcção de Produção: Patrick J. Palmer, Allen K. Wood; Assistentes de realização: Montgomery Banta, Malcolm R. Harding, Mickey McCardle; Departamento de arte: Arthur Friedrich, William Maldonado; Som: Robert Martin, Clem Portman, Ben Smith; Efeitos especiais: Norman Breedlove; Companhias de produção: The Mirisch Corporation, A Blake Edwards production; Intérpretes: Peter Sellers (Hrundi V. Bakshi), Claudine Longet (Michele Monet), Natalia Borisova (Ballerina), Jean Carson (Nanny), Marge Champion (Rosalind Dunphy), Al Checco (Bernard Stein), Corinne Cole (Janice Kane), Dick Crockett (Wells), Danielle De Metz (Stella D'Angelo), Herbert Ellis (realizador), Paul (Ronnie Smith), Steve Franken (Levinson), Kathe Green (Molly Clutterbuck), Frances Davis, Allen Jung, Sharron Kimberly, James Lanphier, Buddy Lester, Stephen Liss, Gavin MacLeod, Jerry Martin, Fay McKenzie, J. Edward McKinley, Denny Miller, Elianne Nadeau, Tom Quine, Timothy Scott, Ken Wales, Carol Wayne, Donald R. Frost, Helen Kleeb, George Winters, Linda Gaye Scott, John McKee, Vin Scully, etc. Duração: 96 minutos; Distribuição em Portugal (DVD): MGM; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 5 de Abril de 1969.

PETER SELLERS 
(1925-1980)
Nascido em Southsea, Hampshire, Inglaterra, a 8 de Setembro de 1925, Peter Sellers (cujo nome de baptismo era Richard Henry Sellers) foi actor, realizador, cantor, entertainer, escritor. Morreu, de ataque de coração, a 24 de Julho de 1980, em Londres, Inglaterra. Filho de um casal de actores que actuavam numa companhia dirigida pela avó, estudou no St. Aloysius College e estreou-se em 1945, em espectáculos teatrais, como imitador. Serve na R.A.F. e, no fim da II Guerra Mundial, consegue evidenciar-se na rádio e na TV (“The Goon Show”, BBC, 1949-1956, ao lado de Spike Milligan, Michael Bentine e Harry Secombe), iniciando-se no cinema em 1951, ainda que anteriormente tivesse intervindo em algumas curtas-metragens e documentários, o que prossegue posteriormente, nomeadamente em “Humor Abstrato” (The Running, Jumping, Standing Still Film), uma das melhores curtas-metragens de humor dessa década, assinada por Richard Lester (Inglaterra, 1959). A partir de 1955, confirma-se como um dos mais inteligentes, criativos e finos intérpretes ingleses, num tipo de humor iniciado por Alec Guinness, com quem trabalhou no primeiro grande sucesso da sua carreira, “O Quinteto era de Cordas”. Prosseguiu uma actividade regular na ITV e lançou alguns discos como cançonetista. Foi prémio de interpretação no Festival de San Sebastian de 1962 por “A Valsa do Galanteador”. É na década de 60 que se impõe como um actor notável e de grande sucesso de crítica e de público, em filmes como “What's New, Pussycat” (1965), ao lado de um promissor Woody Allen que se estreava, na série “A Pantera Cor-de-Rosa”, ou em obras de Stanley Kubrick, como “Lolita” ou “Dr. Estranho Amor”. A sua única experiência como realizador assumida integralmente é “Topaze”, mas teve uma outra tentativa, “The Fiendish Plot of Dr. Fu Manchu”, iniciada por si, mas não terminada por, entretanto, ter falecido. A sua grande aposta nos derradeiros anos de vida foi “Being There”. Peter Sellers leu o livro em 1972, achou que seria um papel à sua medida e lutou por ele durante sete anos. Em 1979, nomeado para o Oscar de melhor actor, perderia a estatueta para Dustin Hoffman, em “Kramer vs. Kramer”. Um falhanço que deixaria o actor profundamente angustiado. No ano seguinte, morreria, vítima de um ataque cardíaco. Na revista Empire, numa consulta aos leitores, Peter Sellers ficou em 84º lugar entre os 100 maiores actores de todos os tempos.

Filmografia

Principais filmes como actor: 1951: Penny Points to Paradise, de Tony Young; 1952: Down Among the Z Men, de Maclean Rogers;; 1955: The Ladykillers (O Quinteto era de Cordas), de Alexander Mackendrick; Case of the Mukkinese Battle Horn, de Joseph Sterling; 1957: The Smallest Show on Earth (Luzes sem Ribalta), de Basil Dearden; The Naked Truth (A Verdade Nua), de Mario Zampi; l; 1959 The Mouse That Roared (O Rato que Ruge), de Jack Arnold; I'm All Right, Jack (Simpático Idiota), de John Boulting; The Running, Jumping, Standing Still Film (Humor Abstrato), de Richard Lester (curta-metragem); 1960: The Battle of the Sexes (Uma Mulher Tranquila), de Charles Crichton; Two Way Stretch (Arma de Dois Gumes), de Robert Day; 1961: The Millionairess (A Milionária), de Anthony Asquith; Mr Topaze (Topaze), de Peter Sellers; The Road to Hong Kong (A Caminho de Hong-Kong), de Norman Panamá; 1962: Only Two Can Play (A Segunda Mulher), de Sidney Gilliat; Lolita (Lolita), de Stanley Kubrick; Waltz of the Toreadors (A Valsa do Galanteador), de John Guillermin; 1963: Heavens Above (Na Terra Como No Céu), de John Boulting, Roy Boulting; The Wrong Arm of the Law (O Braço Esquerdo da Lei), de Cliff Owen; The Pink Panther (A Pantera Cor-de-Rosa), de Blake Edwards; Dr. Strangelove (Dr. Estranho Amor), de Stanley Kubrick; The World of Henry Orient (O Mundo de Henry Orient), de George Roy Hill; 1964: A Shot in the Dark (Um Tiro às Escuras), de Blake Edwards; 1965: What's New Pussycat (O Que Há de Novo, Gatinha?), de Clive Donner; The Wrong Box (A Fabulosa Troca de Caixões), de Bryan Forbes; 1966: After The Fox ou Caccia Alla Volpe (A Raposa Dourada), de Vittorio de Sica; 1967: Casino Royale (Casino Royal), de John Huston, Ken Hughes, Val Guest, Robert Parrish, Joe McGrath, Richard Talmadge; The Bobo (O Bobo), de Robert Parrish; Woman Times Seven (Sete Vezes Mulher), de Vittorio de Sica; 1968: The Party (A Festa), de Blake Edwards; I Love You Alice B. Toklas (A Borboleta Vermelha), de Hy Averback; Candy (Candy), de Christian Marquand; 1969: The Magic Christian (Um Beatle no Paraíso), de Joseph Mc Grath; 1970: Hoffman (Hoffman), de Alvin Rakoff; There's A Girl In My Soup (Está uma Rapariga na Minha Sopa), de Roy Boulting; 1972: Alice's Adventures in Wonderland (As Aventuras de Alice), de William Sterling; 1973: The Blockhouse (O Fortim), de Clive Rees; Soft Beds, Hard Battles (Batalhas Duras em Camas Moles), de Roy Boulting1974: The Great Mcgonagall, de Joseph McGrath; The Return of the Pink Panther (A Volta da Pantera Cor-de-Rosa), de Blake Edwards; 1976: Murder By Death, de Robert Moore; The Pink Panther Strikes Again (A Pantera Cor-de-Rosa Volta a Atacar), de Blake Edwards; 1978: Revenge of the Pink Panther (A Vingança da Pantera Cor-de-Rosa), de Blake Edwards; 1979: The Prisoner of Zenda (O Prisioneiro de Zenda), de Richard Quine; 1980: Being There (Bem-Vindo, Mr. Chance), de Hal Ashby; The Fiendish Plot of Dr. Fu Manchu, de Piers Haggard.

domingo, 23 de abril de 2017

A PANTERA COR DE ROSA




A PANTERA COR-DE-ROSA (1963)

A série “A Pantera Cor-de-Rosa” resulta de um conjunto de circunstâncias e de uma reunião de personalidades e de talentos invulgares, que transformaram uma normal comédia sem grandes motivos para perdurar na memória dos espectadores num acontecimento cinematográfico a obrigar a contínuas sequelas. Desde 1964, data da estreia da primeira “Pantera”, até ao presente, vários foram os títulos que tiveram “The Pink Panther” e o inspector Closeau como referências, os primeiros cinco interpretados pelo seu genial criador, Peter Sellers, um aproveitando restos de filmagens e repetindo excertos de filmes anteriores, prolongando de forma anómala a presença de Peter Sellers, mesmo depois da sua morte em 1980, alguns ainda tentado recriar a personagem por outros actores (Alan Arkin, Roger Moore, Roberto Begnino ou Steve Martin, por exemplo), com resultados quase sempre decepcionantes. A verdade é que a “Pantera Cor-de-Rosa” foi um fenómeno de público a que não se pode ficar indiferente, mas que será interessante estudar e tentar perceber sob vários prismas.
Blake Edwards é um dos grandes autores de comédia do cinema norte-americano das décadas de 60 a 80 (muito embora a sua actividade se tenha iniciado nos anos 50 e prolongado até à década de 90). Pode dizer-se que o seu primeiro grande sucesso é uma comédia romântica que presentemente funciona como ícone de uma época, “Breakfast at Tiffany's” (Boneca de Luxo, 1961), a que se segue toda a série de “The Pink Panther” (A Pantera Cor de Rosa, 1963), iniciada com esse título, continuada por “A Shot in the Dark” (Um Tiro às Escuras, 1964), “The Return of the Pink Panther” (O Regresso da Pantera Cor de Rosa, 1975), “The Pink Panther Strikes Again” (A Pantera Cor de Rosa Volta a Atacar, 1976), “Revenge of the Pink Panther” (A Vingança da Pantera Cor de Rosa, 1978), “Trail of the Pink Panther” (Na Pista da Pantera Cor-de-Rosa, 1982), “Curse of the Pink Panther” (A Maldição da Pantera Cor-de-Rosa, 1983), todos com Peter Sellers. Entretanto, entremeadas com estas obras, Blake Edwards foi dirigindo outras grandes comédias, nas quais foi mantendo vivo o tom do “slapstick” e do burlesco que tanto sucesso conheceram durante o período do cinema mudo, com títulos como “The Great Race” (A Grande Corrida à Volta do Mundo, 1965), “What Did You Do in the War, Daddy?” (O Que Fizeste na Guerra, Paizinho?, 1966), “The Party” (A Festa, 1968) ou “S.O.B.” (Tudo Boa Gente!, 1981), ao lado de outras comédias mais sofisticadas, alternado entre a comédia romântica e a comédia musical: 1970 – “Darling Lili” (Darling Lili); 1974 – “The Tamarind Seed” (A Semente de Tamarindo); 1979 – “10” (10 – Uma Mulher de Sonho); 1982 – “Victor/Victoria” (Victor/Victória), 1983 – “The Man Who Loved Women” (O Homem que Gostava de Mulheres) ou1987 – “Blind Date” (Encontro Inesquecível). Mas foi autor igualmente de belíssimos dramas e inclusive de um thriller de boa memória.


Em inícios da década de 60, Blake Edwards escreveu o argumento de “The Pink Panther” e procurou actores para darem corpo às personagens então esboçadas. Peter Ustinov foi inicialmente pensado para criar a personagem do inspector Jacques Cousteau, e teria a seu lado Ava Gardner. Peter Ustinov fora entretanto convidado para interpretar uma outra personagem célebre do mundo do crime, o detective Hercule Poirot, uma criação de Agatha Christie, e viu-se obrigado a declinar o convite para Clouseau. Seria Peter Sellers a aceitar o repto, de uma forma que ficou famosa nos bastidores da sétima arte: “Imagina, confidenciou a um amigo de longa data, Graham Stark, que vou filmar em Itália, com um realizador desconhecido, chamado Blake Edwards, e me vão pagar 90 mil libras.” O salário era bom na época para um actor inglês, Mas o realizador não era desconhecido. O encontro de Balke Edwards e Peter Sellers iria marcar uma data para ambos e para a História do Cinema. Daí nasceria a série “A Pantera Cor-de-Rosa” e alguns outros trabalhos, como o fabuloso “The Party”, seguramente uma das melhores comédias dos últimos anos.
Mas “A Pantera Cor-de-Rosa” seria uma obra que iria explodir em todas as direcções, de forma algo perturbante, dado que nem sequer é o melhor filme da série, nem sequer encerra algumas das suas características básicas. Marca, porém, o encontro de várias personalidades e marca igualmente o nascimento de figuras e situações que posteriormente se irão desenvolver de forma autónoma. Não só o encontro de Blake Edwards e Peter Sellers é decisivo. É-o também a reunião do compositor Henry Mancini e do director de animação Friz Freleng.
Edwards escreve uma paródia ao filme de detective que se destinava essencialmente a ser interpretada por um “ladrão de casaca” muito britânico que iria roubar um diamante célebre que era conhecido por “Pantera Cor-de-Rosa”. O ladrão seria interpretado por um actor então muito na berra, David Niven, que poucos anos antes ganhara o Óscar de melhor actor por um memorável papel em “Separate Tables” (1958), e depois disso aparecera num conjunto importantes de filmes, onde se podem destacar “Bonjour Tristesse” (1958), “Ask Any Girl” (1959), “Please Don't Eat the Daisies” (1960), “The Guns of Navarone” (1961), “The Road to Hong Kong” (1962), “The Best of Enemies” (1962), “55 Days at Peking” (1963), Bedtime Story (1964) ou “Lady L” (1965). David Niven é, neste primeiro episódio da série, o protagonista, e Peter Sellers deveria ser um mero actor secundário, um inspector francês que andava do encalço do habilidoso ladrão.
Sem apresentar alguns dos contornos que o irão tornar uma figura tão popular junto das plateias de todo o mundo, neste primeiro filme da série o inspector Jacques Clouseau é casado com a bela e pérfida Capucine, que o atraiçoa de todas as formas e feitios, não possui ainda a invulgar pronúncia que o irá futuramente notabilizar, não tem como empregado Cato, o japonês com quem trava poderosos duelos de artes marciais, não tem como chefe o enlouquecido Dreyfuss, nem sequer se serve das muitas máscaras e disfarces que em obras seguintes se tornaram frequentes e uma das razões para alguns dos mais célebres gags e momentos de humor.


Curiosamente, “A Pantera Cor-de-Rosa” é um filme paradoxal: não sendo o melhor filme da série, é o que põe em funcionamento a engrenagem que irá desencadear toda a série; feito a pensar em David Niven, lança Peter Seller; sem ser um filme de desenhos animados, tendo apenas um genérico assim concebido, como centenas de outras obras o têm tido ao longo da história do cinema, serve de veículo propulsor de uma série de animação autónoma que irá ter um sucesso monumental durante décadas. Digamos que a reunião de Blake Edwards, Peter Sellers, Henry Mancini e Friz Freleng neste filme desencadeou um conjunto de acções simultâneas, desenvolvidas em direcções diversas, mas tendo todas elas como denominador comum as figuras de Jacques Clouseau e da pantera cor-de-rosa. São, portanto, duas criações brilhantes, que se vão aprofundando à medida que a série vai evoluindo.
Em “The Pink Panther” a acção parte de várias cidades e tende a confluir num mesmo cenário em virtude das personagens se irem aproximando, vindas de diferentes partes do mundo. De Roma, de Hollywood, de Paris, da Cortina d’ Ampezzo. Quem não recorda “O Ladrão de Casaca”, de mestre Hitchcock? A princesa Dala possui um diamante belíssimo que o pai lhe ofereceu ainda em criança. Por outro lado, o inspector Clouseau, da Sureté parisiense procura um misterioso ladrão de joias que é conhecido pela alcunha de “Fantasma”, dado que ninguém o consegue apanhar. O ladrão é Sir Charles que se torna íntimo da princesa com fins inconfessáveis, depois de já ser íntimo da Senhora Clouseau, que não passa sem os seus favores sexuais. No meio disto tudo surge a figura do inspector, digno polícia de uma irreprimível conduta moral, lídimo representante da Ordem e da Lei, que, apesar de atravessar as mais desencontradas situações, se mostra sempre imperturbável, procurando fazer reverter a seu favor até as desgraças que protagoniza. Quando se apoia num globo terrestre, é mais que certo que será projectado para o chão e, ao longa da sua caminhada por este filme insólito, irá tropeçar em bancos, enrolar-se em tapetes, não conseguir abrir portas abertas ou outras donde se soltam os puxadores, quando levanta um dedo inquisitorial, acaba por o enfiar no nariz de algum dos presentes, prende mãos em baldes de gelo, passa por cima de um Stradivarius, que destrói, e quando se apanha na cama, debaixo de lençóis, com a sua traiçoeira mulher, não deixa mesmo de se banhar no champanhe de uma garrafa que se abre no momento menos propicio.
Clouseau é a imagem do infortúnio, da tragédia ambulante, mas, em vez de se sentir infeliz com esta situação que se repete de minuto a minuto, o inspector parece passar por cima delas e ultrapassa-las com uma dignidade e bonomia perfeitas. Quem foi que disse que a pouca sorte persegue Clouseau? Nada disso. Quando no final, em lugar de prender o ladrão, acaba sendo levado para o calabouço, Clouseau tem uma resposta de mestre, que personifica bem a sua personalidade. Quando um polícia lhe pergunta, mas afinal como roubou tudo aquilo, Clouseau em lugar de negar, assume, mas sublinha o facto: “Acredite que não foi nada fácil.” Ladrão sim, mesmo injustamente condenado, mas ladrão em grande estilo.


A PANTERA COR-DE-ROSA
Título original: The Pink Panther
Realização: Blake Edwards (EUA, Inglaterra,1963); Argumento: Maurice Richlin, Blake Edwards; Produção: Dick Crockett, Martin Jurow; Música: Henry Mancini; Fotografia (cor): Philip H. Lathrop; Montagem: Ralph E. Winters; Direcção artistica: Fernando Carrere; Decoração: Reginald Allen, Arrigo Breschi, Jack Stevens; Guarda-roupa: Yves Saint-Laurent; Maquilhagem: Giancarlo De Leonardis, Amalia Paoletti, Euclide Santoli, Michele Trimarchi; Direcção de produção: Guy Luongo, Jack McEdward; Assistentes de realização: Ottavio Oppo; Som: Richard Carruth, Alexander Fisher, Gilbert D. Marchant; Efeitos especiais: Lee Zavitz; Companhia de Produção: Mirisch G-E Productions; Intérpretes: David Niven (Sir Charles Lytton), Peter Sellers (Inspector Jacques Clouseau), Robert Wagner (George Lytton), Capucine (Simone Clouseau), Claudia Cardinale (Princesa Dala), Brenda De Banzie (Angela Dunning), Colin Gordon (Tucker), John Le Mesurier, James Lanphier, Guy Thomajan, Michael Trubshawe, Riccardo Billi, Meri Welles, Martin Miller, Fran Jeffries, etc. Duração: 113 minutos; Distribuição em Portugal (DVD): MGM / LNK /DVD; Classificação etária: M/ 12 anos; Estreia em Portugal: 17 de Dezembro de 1964.

BLAKE EDWARDS 
(1922- 2010)
Blake Edwards, o realizador da série “A Pantera Cor-de-Rosa”, recebeu um Oscar honorário na cerimónia de entrega dos prémios da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas norte-americana, a 29 de Fevereiro de 2004. Com esta distinção, a Academia pretendeu reconhecer o trabalho de Edwards como argumentista, realizador e produtor cinematográfico. “Há mais de 50 anos que Blake Edwards tem vindo a mostrar uma carreira extraordinária, escrevendo, realizando e produzindo o seu próprio trabalho”, explicou Frank Pierson, presidente da Academia. Acrescentou ainda que o trabalho de Blake Edwards o coloca “num grupo pequeno e muito seleccionado de realizadores excepcionais”. Tal como outras personalidades do mundo do cinema que receberam a estatueta em anos anteriores, por idênticas razões: Louis B. Mayer, Gene Kelly, Harold Lloyd, Greta Garbo, Jerome Robbins, Satyajit Ray e Chuck Jones.
William Blake McEdwards, nome de baptismo de Blake Edwards, nasceu a 26 de Julho de 1922, em Tulsa, Oklahoma, EUA. O avô, J. Gordon Edwards, foi um conhecido realizador da época do cinema mudo, tendo dirigido a mítica Theda Bara. O pai, Jack McEdwards, foi director de cena e director de produção, respectivamente no teatro e no cinema.
Blake Edwards começa a sua carreira como actor, surgindo como figurante e actor secundário em numerosas obras, tais como "Ten Gentlemen from West Point" (1942), ou “In the Meantime, Darling” (1944), de Otto Preminger, onde aparecia a dançar com Jeanne Crain, escrevendo outras, como "Panhandle" (1948), onde foi pela primeira e última vez protagonista, ou seis para o realizador Richard Quine, de quem se tornou um colaborador regular, em musicais como “Rainbow 'Round My Shoulder”, “Sound Off” (ambos de 1952) ou “All Ashore” (1953), ou em comédias deliciosas, como “The Notorious Landlady” (A Notável Senhoria).
Criou e escreveu o show radiofónico “Richard Diamond: Private Detective" para Dick Powell, que conheceu imenso sucesso. Para a TV concebe uma “sitcom” escrita especialmente para Mickey Rooney, "Hey Mulligan" (também conhecida por "The Mickey Rooney Show," 1954-55). Criou igualmente algumas séries de televisão muito populares, como "Peter Gunn" (1958-60), "Mr. Lucky" (1959- 60), e "Dante" (1960-1).
Especializando-se na comédia, experimenta quase todos os géneros, com bons resultados: "Operation Petticoat", um filme sobre submarinos; "Breakfast at Tiffany's", uma comédia romântica baseada em Truman Capote, que hoje em dia é um “cult movie”; "Experiment in Terror", um inquietante filme de terror psicológico; "Days of Wine and Roses", um drama sobre um casal de alcoólicos, Jack Lemmon e Lee Remick, em trabalhos notáveis; “The Wild Rovers”, um western crepuscular; "The Pink Panther" e "A Shot in the Dark", comédias loucas que recuperam o burlesco, e cujo tom se prolonga noutras obras como “The Great Race” (1965, dedicado a "Mr. Laurel e Mr. Hardy"), “What Did You Do in the War, Daddy?” (1966) ou a revisitação da técnica do “slapstick” nesse delirante “The Party” (1968, com Peter Sellers). A partir de certa altura Blake Edwards entrou em conflito aberto com os produtores de Hollywood. Passou a filmar em Inglaterra alguns episódios da série “A Pantera Cor-de-Rosa” e voltou à América para assinar dois grandes sucessos "10", com Dudley Moore e Bo Derek (1979) e "Victor/Victoria" (1982), com uma espantosa Julie Andrews, ao mesmo tempo que cobrava dívidas antigas ao rodar “S.O.B.” (Son Of Bitch), uma comédia corrosiva sobre Hollywood e os seus métodos.
Depois disso, Edwards não deixou de rodar obras particularmente interessantes, algumas delas experiências pessoais curiosíssimas, como “Micki + Maude” (1984), “Skin Deep” (1989), uma adaptação de Truffaut, “The Man Who Loved Women” (1983), ou o autobiográfico “That's Life!” (1986), interpretado por Jack Lemmon e totalmente rodado no interior da casa de Blake Edwards em Malibu, escrito por este de colaboração como o seu psicanalista, Dr. Milton Wexler. Sucederam-lhe obras mais convencionais, como “A Fine Mess” (1986), “Blind Date” (1987), e “Switch” (1991). Não deixou de perseguir o sucesso da série “A Pantera Cor-de-Rosa”, mas depois da morte de Peter Seller nenhuma das sequelas teve o mesmo sucesso, nem “Trail of the Pink Panther” (1982), nem “Curse of the Pink Panther” (1983), nem “Son of the Pink Panther” (1993), com o actor italiano Roberto Benigni. Mais recentemente produziram-se novas tentativas de reabilitar o Inspector Clouseau, desta feita sob a aparência de Steve Martin, numa realização de Shawn Levy (EUA, 2005), com argumento de Len Blum e Steve Martin, inspirado em personagens criadas por Blake Edwards. Obviamente que o cineasta se sente traído quanto a esta nova versão, para onde não foi pedida nem a sua colaboração de argumentista nem de realizador.
Blake Edwards era casado desde 1969 com a actriz Julie Andrews, com quem trabalhou em diversos filmes e de quem tem dois filhos, tendo anteriormente sido casado com Patricia Walker (1953 - 1967), de quem de divorciou, e de quem tem igualmente dois filhos. Blake Edwards faleceu em Santa Monica, California, a 15 de Dezembro de 2010, com 88 anos. Sofria de CFS (Chronic Fatigue Syndrome – Síndroma de Fadiga Crónica).

Principais filmes:

1961 - Breakfast at Tiffany's (Boneca de Luxo); 1962 - Days of Wine and Roses (Escravos do Vício); 1962 - Experiment in Terror ou The Grip of Fear (Uma Voz na Escuridão); 1963 - The Pink Panther (A Pantera Cor de Rosa); 1964 - A Shot in the Dark (Um Tiro às Escuras); 1965 - The Great Race (A Grande Corrida à Volta do Mundo); 1966 - What Did You Do in the War, Daddy? (O Que Fizeste na Guerra, Paizinho?); 1967 - Peter Gunn (Peter Gunn, Detective Privado); 1968 - The Party (A Festa); 1970 - Darling Lili (Darling Lili); 1971 - Wild Rovers (Vagabundos Selvagens); 1972 - The Carey Treatment (Um Caso de Urgência); 1974 - The Tamarind Seed (A Semente de Tamarindo); 1975 - The Return of the Pink Panther (O Regresso da Pantera Cor de Rosa); 1976 - The Pink Panther Strikes Again (A Pantera Cor de Rosa Volta a Atacar); 1978 - Revenge of the Pink Panther (A Vingança da Pantera Cor de Rosa); 1979 - 10 (10 – Uma Mulher de Sonho); 1981 - S.O.B. (Tudo Boa Gente!); 1982 - Trail of the Pink Panther (Na Pista da Pantera Cor-de-Rosa); 1982 - Victor/Victoria (Victor/Victória); 1983 - The Man Who Loved Women (O Homem que Gostava de Mulheres); 1983 - Curse of the Pink Panther (A Maldição da Pantera Cor-de-Rosa); 1984 - Micki + Maude (Micki e Maude); 1986 - A Fine Mess (Uma Tremenda Confusão); 1986 - That's Life! (A Vida é Assim!); 1987 - Blind Date (Encontro Inesquecível); 1988 - Sunset (Hollywood 1929); 1989 - Skin Deep (O Amor é uma Grande Aventura); 1991 - Switch (Na Pele de Uma Loira); 1993 - Son of the Pink Panther ou Il Figlio della Pantera Rosa (O Filho da Pantera Cor de Rosa).